excessos

o dente-de-leão não está mais lá. provavelmente, foi arrancado com os excessos de grama, quando foi aparada. fiquei pensando no que há de transgressor no dente-de-leão. a forma como cresce sem pedir permissão, a despeito das escolhas paisagísticas mais adequadas. e ainda com a proposta de dar-se ao sopro, ao vento. é uma plantinha dada, o dente-de-leão. biscate. não há espaço para ela num jardim meticulosamente cuidado, onde só floresce o que tem licença. assim como em Gilead.

depressão sazonal

encolher. pequena como grão, semente. regredir até virar crisálida. me enrolar em capas e capas, carapaças. caramuja. pequenos feijões não têm proteção contra o frio. a pele reclama do vento, quer útero. cobertor. despreparada, tão cedo. sempre é preciso nascer outra vez, desenrolar-se. sempre cedo demais.

se eu pudesse armazenar o sol. imprimir calor nas células, estocar para uso posterior. guardar a cor e o brilho, os tons todos de amarelo, laranja, vermelho. e a sensação de estar em casa. o vento chega nas articulações, nos pelos. friagens. perséfone: poderia me recolher ao hades, os campos chorando minha ausência. mas os campos já não param ou choram. já não são campos. o espetáculo deve continuar.

De poderes e responsabilidades

Uma das consequências pouco agradáveis de se ficar mais responsável: coisas inesperadamente boas acontecem com menos frequência. Quando a gente não liga pra nada, não se preocupa com os pequenos desastres do dia a dia, e sempre algo extraordinário aparece para nos salvar do naufrágio. Mas, com responsabilidade, é preciso economizar no otimismo. Prever todo tipo de problemas, para antever como evitá-los – o que acaba sendo, também, uma forma de atraí-los. Pensamento mágico? Evidente. Mas não gostaria de viver em mundo onde não houvesse espaço para a mágica, ainda que ela se volte contra mim, às vezes.

***

Corolário criativo: donde a dúvida: como manter a frequência alta, se precisamos mergulhar em lodaçais para escrever? Se a arte se alimenta da vida completa, não só do harmônico, como submergir – sem se afogar? Como voltar da toca do coelho, fechar a porta e continuar a existir?

Ciborgues

Hoje ia tomar café com uma amiga. Ela estava atrasada, decidi ligar. Aí vi: tinha esquecido o celular. Me deu nervoso. E me ocorreu: não é que estamos viciados em celular, em tecnologia. O celular se tornou foi uma extensão de nós mesmos. Da nossa consciência. Como os óculos são a extensão da nossa vista. E a prótese é a extensão da perna de quem usa. A sensação de esquecer o telefone não é a de “craving”, de vício, de preciso-de-chocolate-AGORA. Não é desejo que precise ser apaziguado. É antes como estar sem um pedaço de si, sem uma capacidade, como a fala. Pois ficamos impedidos de nos comunicar. Não dizemos que somos “viciados” em pernas e braços, que nos tornamos “dependentes” de nossa visão – ou de nossos óculos. Mesmo que dependamos dessas coisas. Uma pessoa com prótese no quadril pode precisar dela para se locomover. Cada vez mais, nós precisamos do celular para nos comunicar. É uma extensão da nossa língua, do nosso aparelho fonador, da nossa mente. Pior se for um espertofone, com acesso a e-mail. Pois, em caso de ausência, ficamos sem poder acessar informações que deveriam estar na consciência (ou num caderno – que também é uma espécie de extensão da mente), mas ficam no Gmail. Saio e não anoto o endereço do local aonde vou, porque posso olhar no e-mail. A pessoa sozinha em casa, sem necessidade de falar, pode não perceber que está sem voz até que tente conversar com alguém. Eu não pensei no meu telefone, não senti vontade de falar nele, não o desejei – a não ser quando precisei dele, e não encontrei. Sensação de desamparo, limitação, handicap, como se uma função corporal estivesse comprometida. Não é que seremos ciborgues, no futuro. Não precisamos esperar as descobertas do Nicolelis. Já estamos lá.

poliedro

sou diversas coisas. várias, exceto as que eu não sou – e mesma essas, as que não me tornei, por incompetência, incapacidade, falta de vontade ou de conhecimento, afetam a uma que sou. hora de anunciar uns óbvios: a pluralidade um deles. muitos anos doídos procurando a veia principal, o algo que me definisse mais que o resto. pluralidade era dissociação, confusão. desvios de rota, perdas de tempo. embora não houvesse rota. embora a rota fosse exatamente o que buscava. mas os desvios fazem parte do percorrido: um poliedro é formado por diversos lados. não é plano, não pode ser. por definição. e assim também as pessoas. difícil que sejam planas. mas dos outros não afirmo, não me cabe. sei de mim: do poliedro que sou. de cada lado que descubro, e aceito.

gioconda belli, BF e coletânea

Meu post de hoje no site das Blogueiras Feministas é sobre O Olho da Mulher, livro de poesia da Gioconda Belli, que acaba de ser lançado no Brasil pela Arte Desemboque. O livro é lindo. Me lembrou Walt Whitman, em seu amor pela vida, pelas pessoas. Vai lá.

A trepadeira
está me saindo
pelas orelhas.

Meus olhos se transformaram
em pistilos que se movem
e minha boca está repleta
de flores cor de amora.

————

Como esse blog é novo, vou colocar também aqui o link para meus outros textos nas BF. Sempre tem alguém que gostaria de ler, creio. Aqui.

————

Chegaram os livros do IV Prêmio Literário Canon de Poesia. Um poema meu está entre os 50 escolhidos para compor o livro. É da fase antiga, não tão sentível quanto eu gostaria. Mas pra quem tiver curiosidade, é esse aqui: terceira via.

a aia e o dente-de-leão

ontem vi um dente-de-leão. único, no gramado aonde caminho depois do almoço. engraçado como a realidade às vezes conversa com nossa cabeça. na mente, outro dente-de-leão: uma criança sopra, a mãe observa, em lembranças. foi em o conto da aia, da margareth atwood. presente que ganhei da ana erre esse ano: é tema de seu doutorado, e ela nos convidou a ler. li. me perturbou. não tinha outro jeito. um mundo em que as mulheres são divididas em categorias, algumas são esposas, outras cuidam da limpeza, outras da cozinha. outras são aias: receptáculos para fins reprodutivos. para transar com os maridos – os comandantes – e dar à luz crianças que seriam criadas por esposas inférteis. ideia tirada da bíblia:

Vendo, pois, Raquel que não dava filhos a Jacob, teve Raquel inveja de sua irmã, e disse a Jacob: dá-me filhos, senão eu morro.

Então se acendeu a ira de Jacob, contra Raquel, e disse: Estou eu no lugar de Deus, que te impediu o fruto de teu ventre?

E ela lhe disse: Eis aqui a minha serva, Bilha; entre nela para que tenha filhos sobre os meus joelhos, e eu, assim, receba filhos por ela.

a taxa de fertilidade do país – que um dia fora os estados unidos – vinha caindo. estava negativa. era preciso fazer algo. então a regulação de corpos e comportamentos. das mulheres, principalmente. algumas com mais benefícios que outras – que é para que não se revoltem. quando o poder é escasso, ter pouco é melhor que nenhum. há poucos protestos. afinal, é para o bem delas. dificilmente são estupradas, abusadas, agora. não é preciso se preocupar com padrões de beleza impostos: hábitos como os de freiras cobrem a maioria dos corpos.

as aias são mulheres que já provaram sua fertilidade, por já terem filhos. como a narradora offred. sua história é assustadora, porque não inverossímil. regular o corpo e o sexo das pessoas faz parte da nossa realidade. e no fim até mesmo a narrativa de offred é questionada, numa sacada sensacional de atwood. tenho pensado no livro. em offred, em sua passividade, na filha perdida, sem nome. nas pequenas coisas que fazem tanta falta se tiradas, pequenos luxos que não percebemos. como creme para as mãos, proibido para as aias. e outras coisas vetadas a elas. conversar à toa. comer um chocolate. caminhar no gramado após o almoço. ver um dente-de-leão.

contingência

esteticamente, eu queria: coerência. mais que por ética. tão lindo coisas paralelas, simétricas, compostas. sou daquelas que acredita: a harmonia do externo reverbera no interno – assim embaixo como está em cima. e mudo o de fora, tentando serenar o de dentro. alucicrazy, mas não me abalo: o consolo está em linhas retas, em proporções áureas. estaria. gostaria. mas de todo não posso. um dia maiúsculas, um dia minúsculas. eticamente, sou pela incoerência. é mais humana.

das coisas

…que eu queria dizer. sendo eu. do que é meu. como um sonho numa noite, há tanto tempo. de morte e finitude. um tiro no meio da noite. uma busca. uma teoria que a tudo abarcasse. e a única que encontrava: não é possível; nada era nunca foi possível. donde a volta ao ponto inicial. e o posterior engavetamento.

bem mais tarde, outra noite. uma festa, uma casa, um quintal. um amigo. as coisas não são aleatórias, diz. acredito. não sei por que – talvez a forma como ele diz, me abraçando como se importasse. talvez um platonismo, latente e circular, território seguro. coisas que são, coisas que não são – nem nunca poderão ser. o vir-a-ser roubado. forma não-concreta de apreender o mundo.

uma certeza

não sou sociopata. foi o que disseram. garantiram. tão simples, parece. mas tão livre. porque tem as sombras. eu não sabia o que fazer com elas. como as cabeças da hidra. são nove. corta-se oito – uma é imortal. essa enterra-se fundo, com uma pedra em cima. para que não escape. mas às vezes escapa. porque as sombras não são como a cabeça da hidra. são aeradas, gasosas. e aí elas escapolem, sempre um escândalo, um espalhafato. tão desnecessário. elas rosnam. é curioso observar: pois de fato rosnam, de fato gritam, de fato arremessam coisas. eu. eu arremesso. grito. rosno. arreganho dentes. e se estivessem impressas nos genes? se fosse amoral por natureza. por natureza! quase tem graça. mas não. as sombras são minhas. e não o contrário.