A vida é uma lista de tarefas

Então a vida vai se tornando mais complexa, com mais trabalhos e funções. Novas responsabilidades são formas de reconhecimento, e você se sente honrado, crescido, responsável. Vida adulta: contas e prazos. Pra dar conta de tudo, você faz lista de tarefas, coloca na agenda tudo que precisa ser feito. E vai fazendo sempre aquilo que está nas tais listas. Uma das maiores delícias da vida é riscar coisas da lista de tarefas. Sentir-se assim, eficiente. Uma lista inteira riscada, que luxo. Claro, sobra pouco tempo para o que não é tarefa: ler com os gatos no colo, andar de bicicleta com o namorado, fazer uma nova receita de bolo de chocolate. Aí vem a ideia: colocar esse não-essencial na lista de tarefas, por que não? Afinal, ainda que não tenham prazo, são coisas que precisam ser feitas, para o bem de sua sanidade. E com essa ideia inspirada você começa a anotar: a hora da yoga, de comer manga de manhã, de fazer sexo com a esposa. Brincar com os filhos: das 21h às 22h. É tudo uma questão de organização. Então a vida se torna uma longa, cada vez maior, lista de tarefas. E você se pega em uma segunda-feira chuvosa de feriado, querendo fazer as coisas que planejou para seu raro dia de folga – um feriado, afinal – mas não consegue. Porque fazer yoga não deveria ser uma tarefa. Porque fazer as unhas deveria ser divertido. A vida não é uma porra de uma lista de tarefas, afinal. E naquele dia você não quer fazer nada. Nem tomar café, ou ver o novo episódio de Game of Thrones, ou ler aquela etnografia interessantíssima sobre a Micropolinésia. Não se anima nem com um comfort book, um romance policial ou de vampiros. Nada. Nem levantar você quer – levantar estava na lista de tarefas? Não sei. Mas naquele dia você não quer. Viva os cobertores, os gatos, a capacidade – extensivamente praticada – de dormir 14 horas sem deixar doer a coluna. Dormir nunca está na lista de tarefas, mas foda-se: hoje você acordou iconoclasta. Amanhã, amanhã você pega a agenda de novo. Hoje não.