um pouco de romance

me deu vontade de colocar aqui uns trechinhos de um possível romance que estou possivelmente escrevendo. segue.

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a arte não ama os covardes

não seria incorreto afirmar, pensou, que estava nervosa. não, não, nada incorreto. ao lado, o motorista xingava a fila de sinais vermelhos, enquanto ela: que se há de fazer; há tempo; o certo era ter mais metrô; não vale a pena esquentar com isso. mas ela mesma com as mãos geladas – um tanto pelo ar condicionado – pensou em pedir para desligar, mas ficou tímida –, lembrando a entrevista que vinha. perguntas no bloquinho, rabiscou itens pra não esquecer. dependendo do minuto, pensava estar bem preparada ou o contrário, vergonhosamente sem poder perguntar qualquer coisa. quantos livros ele tinha escrito? três, ela lera um. quantas pinturas/obras/instalações? inúmeras, ela vira duas, e apenas as de bienais. ali estava, um artista tipo completo, um tanto renascentista, que ia do visual ao escrito como um da vinci conceitual. tinha até um disco gravado. e ela jornalista. o que não era um currículo, mas um pedido de desculpas.

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que era preciso ter crença na arte. possibilidades. quanto tudo falta, tudo é bem-vindo, não há esse senso de inutilidade. mas quando tudo sobra, tudo é excesso. aí o dilema: um mundo que tinha tudo, uma vida que tinha tudo, e eu sem fé, tudo tão inútil, tão já-visto… não podia ouvir as vozes novas. elas não eram ainda necessárias. e isso eu lembro bem: cultura é acúmulo. o novo é acúmulo. quando renovar for preciso, tudo será renovado. não sofrer tanto, sendo essa gente de entressafra. não é você, não é seu daemon, é o tempo. estamos na descendente da espiral seguindo o fluxo, continuando. a espiral será destruída e tudo recomeçará, ou não, mas eu e você estaremos longe, longe, ivana.

primavera literária & mais

E agora retomar a programação normal. Dias muy produtivos por aqui. Em todos os sentidos, ou, pelo menos, os importantes.

Participei da Primavera Literária na Praça Roosevelt, no festival Satyrianas. Devia ter linkado o convite aqui, mas sabe como é, né. Foi bem bacana; escritores debatendo literatura e cidade. Curadoria da linda Ana Rüsche. Vai sair algo mais dessas conversas, tenho certeza.

Abaixo algumas das coisas que escrevi nesse tempo. Os textos palpiteiros de sempre e novos poemas. Uma série nova pela qual estou apaixonada. Espero que não seja só amor de verão. Veremos.

Meu texto de estréia no Biscate Social Club:
– O concurso de Miss Bumbum e o direito de falar merda
“Amanda Sampaio é mulher. Transexual, decidiu pela cirurgia genital, que realizou na Tailândia, em 2007. Em 2012, Amanda decidiu participar do concurso Miss Bumbum, e foi selecionada. Até aí, tudo OK. O problema é que suas concorrentes não gostaram nada da história.”

Textos meus no Blogueiras Feministas:
– O mundo está ficando mais chato (só que não)
“Esses dias tive uma conversa boa no Facebook sobre a chatice do mundo atual. É um tema recorrente: o politicamente correto estaria deixando o mundo mais insosso, sem graça, sem espaço para o humor. Em suma, mais chato. E muita gente atribui toda essa chatice aos dos ativistas, que só têm atitudes enfadonhas e radicais. Acabei escrevendo um pouco a respeito no debate com um amigo. A coisa rolou mais ou menos assim:”

– Intocáveis, Spike Lee e o racismo dos estereótipos
“Era pra ser um filme emocionante, engraçado, sensível. Foi o que me disseram. E de certa forma era. O que ficou, porém, foi outra coisa. Uma ponta de dúvida, uma ponta de tristeza para a invisibilidade que algumas questões ainda têm.”

Poemas, poemas:
28 de outubro, 2012 (poeminha para a eleição)
canção para o meu pai
ruído