o direito à preguiça

dos temas que preciso desenvolver melhor: a preguiça. e nosso direito a ela. e a ideia de que a eficiência, a produtividade e a condenação ao tempo ocioso ajudam a escravizar e matar coisas bonitas em nossas almas/mentes. e, finalmente, da teoria de como o sistema mutante se reformulou para garantir as horas suadas mesmo de quem poderia estar surfando na micropolinésia agora: fácil. basta fazer com que certas pessoas amem o seu trabalho. e assim, passem horas e horas e horas nele, com sorrisos rasgados. bem. eu mesma gosto muito do que faço (ser pago pra aprender, como no jornalismo, é divertido. fora escrever, que é o que gosto e sei). certamente é melhor do que ser atropelado por um caminhão, como diria philip roth. mas né. a reflexão está aí para ser feita.

tudo isso para colocar um trecho do lafargue, de seu clássico “o direito à preguiça”. a cynara menezes conta, nesse link aqui, quem foi ele. pra resumir: foi um socialista bacana, genro do karl marx, e que achava isso de trabalhar muitas horas coisa de louco. foi dele a ideia, ao que parece, de dividir o dia em três partes: 8 horas de sono, 8 de descanso, 8 de trabalho. pra que o pessoal não pirasse em [mandar os outros] trabalhar 12, 13, 14 horas. pois é. um cara bacana. e um socialismo que faz sentido, pra mim. mas vamos ao texto, primeiro capítulo do livro, copiado descaradamente do blog da cynara:

Um dogma desastroso

“Sejamos preguiçosos em tudo, exceto em amar e em beber, exceto em sermos preguiçosos” (LESSING)

Uma estranha loucura se apossou das classes operárias das nações onde reina a civilização capitalista. Esta loucura arrasta consigo misérias individuais e sociais que há dois séculos torturam a triste humanidade. Esta loucura é o amor ao trabalho, a paixão moribunda pelo trabalho, levado até ao esgotamento das forças vitais do indivíduo e de seus filhos. Em vez de reagir contra esta aberração mental, os padres, os economistas, os moralistas sacrossantificaram o trabalho. Homens cegos e limitados, quiseram ser mais sábios do que o seu Deus; homens fracos e desprezíveis, quiseram reabilitar aquilo que o seu Deus amaldiçoara. Eu, que não me declaro cristão, economista nem moralista, coloco os seus juízos ante os do seu Deus; coloco diante dos sermões da sua moral religiosa, econômica, livre-pensadora, as terríveis conseqüências do trabalho na sociedade capitalista.

Na sociedade capitalista, o trabalho é a causa de toda a degenerescência intelectual, de toda a deformação orgânica. Comparem, por exemplo, o puro-sangue das cavalariças de Rothschild, servido por uma turba de lacaios bímanos, com a pesada besta das quintas normandas que lavra a terra, carrega o estrume, que põe no celeiro a colheita dos cereais. Olhem para o nobre selvagem, que os missionários do comércio e os comerciantes da religião ainda não corromperam com o cristianismo, com a sífilis e o dogma do trabalho, e olhem em seguida para os nossos miseráveis criados de máquinas.

Quando, na nossa Europa civilizada, se quer encontrar um traço de beleza nativa do homem, é preciso ir buscá-lo nas nações onde os preconceitos econômicos ainda não desenraizaram o ódio ao trabalho. A Espanha, que infelizmente degenera, ainda pode se gabar de possuir menos fábricas do que nós prisões e casernas; o artista se regozija ao admirar o ousado andaluz, moreno como as castanhas, reto e flexível como uma haste de aço; e o coração do homem sobressalta-se ao ouvir o mendigo, soberbamente envolvido na sua capa esburacada, chamar amigo aos duques de Ossuna. Para o espanhol, em cujo país o animal primitivo não está atrofiado, o trabalho é a pior das escravidões.

Os gregos da grande época também só tinham desprezo pelo trabalho: só aos escravos era permitido trabalhar, o homem livre só conhecia os exercícios físicos e os jogos da inteligência. Também era a época em que se caminhava e se respirava num povo de homens como Aristóteles, Fídias, Aristófanes; era a época em que um punhado de bravos esmagava em Maratona as hordas da Ásia que Alexandre iria dentro em breve conquistar. Os filósofos da Antigüidade ensinavam o desprezo pelo trabalho, essa degradação do homem livre; os poetas cantavam a preguiça, esse presente dos Deuses: O Meliboe, Deus nobis hoec otia fecit (Ó Melibeu, um Deus deu-nos esta ociosidade).

Cristo pregou a preguiça no seu sermão na montanha: ”Olhai como crescem os lírios no campo, eles não trabalham nem fiam e, todavia, digo-vos: Salomão, em toda a sua glória, não se vestiu com maior brilho.”
Jeová, o deus barbudo e rebarbativo, deu aos seus adoradores o exemplo supremo da preguiça ideal; depois de seis dias de trabalho, descansou por toda a eternidade.

Em contrapartida, quais são as raças para quem o trabalho é uma necessidade orgânica? Os auverneses (da Auvernia, região da França); os escoceses, esses auverneses das ilhas britânicas; os galegos, esses auverneses da Espanha; os Pomeranianos, esses auverneses da Alemanha; os chineses, esses auverneses da Ásia. Na nossa sociedade, quais são as classes que amam o trabalho pelo trabalho? Os camponeses proprietários e os pequeno-burgueses, uns curvados sobre as suas terras, os outros retidos nas suas lojas, movem-se como a toupeira em sua galeria subterrânea sem nunca endireitar o corpo para apreciar a natureza.

E, no entanto, o proletariado, a grande classe que engloba todos os produtores das nações civilizadas, a classe que, ao emancipar-se, emancipará a humanidade do trabalho servil e fará do animal humano um ser livre, o proletariado, traindo os seus instintos e se esquecendo da sua missão histórica, deixou-se perverter pelo dogma do trabalho. Rude e terrível foi o seu castigo. Todas as misérias individuais e sociais nasceram da sua paixão pelo trabalho.

essa falta de senso

a calcanhoto que me perdoe, mas eu gosto do bom senso (do bom gosto nem tanto, vá lá, overrated).

dizia o descartes, aquele quadrado, que o bom senso é a qualidade mais bem distribuída do mundo: ninguém acha que tem de menos. somos, cada um, a medida da sensatez mundial, o local onde nada sobra ou falta em termos de sabedoria. ou: quase todos. não eu.

eu não tenho bom senso. não sou sensata. bem que eu queria. porque eu não acho bonito isso de não ter bom senso, de não saber pra que lado pende a balança, e de não ter certeza de que seja para o lado certo.

talvez a minha maior falta de senso seja achar que existe um lado certo.

e aí que está. eu não sou zen como queria, não sou boa como queria, não sou sensata como queria. não importa o quanto eu fale a respeito ou quantas frases de pema chödron eu escreva em post-its. a mim, me falta essa noção de coisas. crio uma estratégias: capricho na forma de falar, cuido do pensar, respiro dez vezes antes mesmo de contar até dez. penso e faço, e disfarço, pra ninguém ver o que falta. e ainda assim um planeta nas costas. coisa besta.

diz que sérgio buarque explica – uma cordialidade de doer. ou um ólogo de boteco: culpa cristã? carência? pode ser. pois eu queria mesmo era amor. no mundo inteiro. imagine all the people se dando as mãos e depois comendo cupcakes.

o buraco é tão grande que faço o mimimi, como a pedir: digam que não é tão ruim assim! que acertei em uma ou duas coisas! colo, eu diria. um buraco, que coisa. ainda se fizesse ventinho e assobiasse.

correto era me aceitar na vontade de acertar. mas não: fico procurando o tal do senso. na tela do computador, num livro qualquer, num meme de gatinho abraçando um cão.

e ainda me espanto de não encontrar.

que seja doce

E começa 2013, como todo novo ano, cheio de promessas. E antes que eu faça as minhas, coloco as cumpridas, ou seja, as coisas que andei fazendo. Que antes de pedir novas coisas é preciso agradecer as alcançadas, e 2012 foi, pra mim, muito produtivo mesmo – em termos de poesia, de reportagens, de ativismo, de pessoas. Parabéns e obrigado a todos os envolvidos: ano do Dragão, Susan Miller, meu daemon – não necessariamente nessa ordem. E que 2013 seja doce, mais doce que brigadeiro de rapadura.

Vida Simples

Um sonho que tenho é de um dia conseguir organizar no site todas as reportagens que fiz, colocando os pdfs e tudo certinho aqui, não só das matérias da Vida Simples, onde trabalho, mas de todas as revistas para onde colaborei. Mas isso não vai rolar tão cedo (a não ser que me caia no colo um secretário…), então, vamos lá, aos bits and pieces. Esse ano, além de fazer matérias, comecei a escrever a seção de livros da revista. Eu já editava a seção de cultura, mas agora estou escrevendo a parte de livros também. Quero fazer os pdfs (ou pelo menos tirar umas fotos das páginas e colocar aqui), mas, como sempre, sou lerda. Mesmo assim, quero colocar uma que já está no ar, que roubei do blog da Lili Aquino: uma materinha sobre poesia que escrevi com os livros mais recentes da Angélica Freitas, da Leda Spinardi e da Lilian. Gostei muito de fazer, porque adoro essas poetas e esses livros, em particular. Cliquem na imagem para ler grande:

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Borboletas nos Olhos – Buk no blog da Lu

Respondendo a uma provocação da Letícia Howes, escrevi e-mail para uma lista de discussão defendendo o Bukowski (não que ele precise) e a arte em geral. A linda Lu Nepomuceno pegou o e-mail e transformou em post. Uma honra, o primeiro post de 2013 no blog dela. Ficou um texto bem de e-mail, meio despenteado e sem lavar as orelhas, mas tá lá. Na próxima me preparo e faço um texto mais melhor de bom, viu, Lu?

“um poema ruim e machista é indesculpável. um poema com coisas lindas e algum toque de machismo pode ser perdoado. claro que tem coisas que me incomodam em todos os livros que leio, mas pra mim não é esse o critério de escolha.”

Blogueiras Feministas – A palavra tem poder

Quanto mais velha, mais hippie, e quanto mais hippie, mais hippie. Minha cruzada pela comunicação não-violenta no ativismo (quiçá na vida; só não na poesia, que é outra coisa):

“Palavra repetida tem força de criação. De profecia. Forma o mundo e inventa categorias inteiras. Agrupa as pessoas de certas formas e não de outras, e o que poderia ser apenas uma escolha de conjunto acaba sendo a escolha de um mundo.”

Poemas, poemas

Publiquei uma leva boa. E tá dando é preguiça de linkar tudo. Vai lá no blog whitmaniano-mpbístico.