margem

podia ser encontrado sempre nas bordas. o mais perto possível para testemunhar o que acontecia sem, de fato, participar. um distanciamento clínico, que nunca perdia um evento mas nunca estava no miolo, junto aos que gritavam, pulavam, suavam. ou talvez suasse, não sei. a latinha invariavelmente na mão, como a atestar pertencimento. de fato, sem ela, como garantir que estava ali? olhava, olhava. dizia frases enigmáticas, que achávamos profundas. tentávamos decifrá-lo. estava preso ao passado, pendente do futuro? nenhuma certeza, ele nunca afirmava nada. talvez fosse uma espécie particular de hipster, praticando ironia tão refinada que suas referências se perdiam no tempo. talvez, no fundo, morresse de vontade de sambar no meio da roda. talvez não. talvez não houvesse o que saber, afinal, do seu laconismo. talvez ele fosse apenas tímido.

e nisso tudo eu pensava, ao lado, ocupando meu próprio pedacinho da margem.

amanhã tudo volta ao normal

o que eu mais gosto no carnaval não é a suspensão da vida comum, o deslocamento esperado de sentidos. as gentes fantasiadas nos blocos, ou na passarela das escolas de samba, são legais, claro. mas não é o que mais me emociona. o que eu mais gosto do carnaval é o confronto com a vida que segue, que não se suspende. a diaba esperando ônibus ao lado do chapolin, a mulher-maravilha e o cara de vestido rosa comprando macarrão no supermercado para a janta pós-folia. é andar na rua e topar com chapéus e lantejoulas, colares e corpetes. é confete, serpentina e purpurina na fila do caixa. pessoal se vestindo com as roupas que queria vestir o ano inteiro, mas não pode. tanta cor sacando dinheiro no caixa eletrônico, pegando táxi, segurando as sandálias na mão porque dançou até sair bolha. o que eu mais gosto no carnaval está na beirada do carnaval, na fronteira; quando o suspenso encontra o não-suspenso, o cotidiano. é uma janela para como a vida podia ser fora das datas festivas, se apenas nossas escolhas, enquanto humanidade, tivessem sido outras.

hoje não botei meu bloco na rua, não dancei, não cantei. mas coloquei meu chapéu florido. e fui fazer supermercado.

842933_489737091062995_1433789057_o

*Foto da sista Liliane Callegari.

poliana, ou o otimismo

olhava as coisas sempre pelo ângulo mais favorável. “transformar crises em oportunidades”, dizia. o mundo, o melhor dos mundos possíveis. chegava a pressão e ela entortava. entortava, entortava, sem nunca quebrar. “resiliência”, dizia. a cada golpe aprendia a dobrar-se como um origami, cada vez menor, menor, o menor origami do mundo. um dia ficou tão pequena que não a viram. pisaram. ela nunca mais olhou o lado positivo das coisas, porque morreu esmagada. fim.