Murilo Mendes por Murilo Mendes

Microdefinição do autor

(A)

Sinto-me compelido ao trabalho literário:

pelo desejo de suprir lacunas da vida real; pela minha teimosia em rejeitar as “avances” da morte (tolice: como se ela usasse o verbo adiar); pela falta de tempo e de ideogramas chineses; pela minha aversão à tirania (…); pelo meu congênito amor à liberdade, que se exprime justamente no trabalho literário; pelo meu não-reconhecimento da fronteira realidade-irrealidade (…); pela certeza de que jamais serei guerrilheiro urbano, muito menos rural, embora gostasse de derrubar uns dez ou quinze governos dos quais omitirei os nomes: receio que outros governos excluídos da minha lista negra julguem que os admiro, coisa absurda (…); por ter visto Nijinski dançar; pelo meu apoio ao ecumenismo, e não somente o religioso; por manejar uma caneta que, desacompanhando minha ideia, não consegue viajar à velocidade de mil quilômetros horários (…); pela preferência a preferir Alocha a Ivan e Dimitri Karamazov; porque dentro de mim discutem um mineiro, um grego, um hebreu, um indiano, um cristão péssimo, relaxado, um socialista amador; porque não separo Apolo de Dionísio; por haver começado no início da adolescência a leitura de Cesário Verde, Rancine, Baudelaire (…); pela fúria galopante dos quadros e colagens de Max Ernst; pela decisão de Casimir Malevich, ao pintar um quadrado branco em campo branco (…); pelo meu amor platônico às matemáticas; pelo dançado destino e as incríveis distrações de Saudade; pelo meu não vertical às propostas de determinados apoetas e impostas no sentido de liquidação da poesia; pelas minhas remotas e atuais viagens ao cinematógrafo, palavra do tempo da infância; porque temo o dilúvio de excrementos, a bomba atômica, a desagregação das galáxias, a explosão da vesícula divina, o julgamento universal; porque através do lirismo propendo à geometria.

(B)

Pertenço à categoria não muito numerosa dos que se interessam igualmente pelo finito e pelo infinito. Atraem-me a variedade das coisas, a migração das ideias, o giro das imagens, a pluralidade de sentido de qualquer fato (…) Sou contemporâneo e partícipe dos tempos rudimentares da matéria – 900 bilhões de anos? –, do dilúvio, do primeiro monólogo e do primeiro diálogo do homem, do meu nascimento, das minhas sucessivas heresias (…), do último acontecimento mundial ou do acontecimento anônimo da minha rua. Na gruta de Altamira disse: eu estava aqui na época em que gravaram estes bichos.

(D)

(…) atiço o conflito entre inspiração e estrutura (…), hóspede dos enigmas; protegido pelo sense of humour, meu anjo da guarda…

[Murilo Mendes, Roma, 14/02/1970]

(Trecho roubado do Facebook do Marcelo Montenegro)