quixote

– Por falar nisso, Sancho, quero que a aprecies [a comédia], tendo-a em alto conceito, como também aqueles que as representam e que as escrevem, pois todos são instrumentos de um grande bem para a república: a cada passo nos põem um espelho pela frente, onde se veem vividamente as ações humanas. Nada nem ninguém representa de modo mais eficaz o que somos e o que haveremos de ser do que a comédia e os comediantes, ou então me diz: não viste representar alguma comédia em que se introduzem reis, imperadores e pontífices, cavaleiros, damas e vários outros personagens? Um faz o rufião, outro o embusteiro, este o mercador, aquele o soldado, outro o bobo sábio, outro o simplório apaixonado, mas, acabada a comédia, despindo os trajes dela, todos os atores ficam iguais.
– Já vi, sim – respondeu Sancho.
– O mesmo que acontece na comédia – disse dom Quixote – acontece no mundo, onde uns representam os imperadores, outros os pontífices, enfim, todas as figuras que se podem introduzir numa peça. Mas, chegando ao fim, que é quando acaba a vida, a todos a morte tira os trajes que os diferenciavam, e ficam iguais na sepultura.

 

Trecho de Dom Quixote, na tradução do Ernani Ssó, que saiu há pouco pela Penguin Companhia. Escrevi uma mini-resenha do livro para a Vida Simples de fevereiro de 2013.

margem

podia ser encontrado sempre nas bordas. o mais perto possível para testemunhar o que acontecia sem, de fato, participar. um distanciamento clínico, que nunca perdia um evento mas nunca estava no miolo, junto aos que gritavam, pulavam, suavam. ou talvez suasse, não sei. a latinha invariavelmente na mão, como a atestar pertencimento. de fato, sem ela, como garantir que estava ali? olhava, olhava. dizia frases enigmáticas, que achávamos profundas. tentávamos decifrá-lo. estava preso ao passado, pendente do futuro? nenhuma certeza, ele nunca afirmava nada. talvez fosse uma espécie particular de hipster, praticando ironia tão refinada que suas referências se perdiam no tempo. talvez, no fundo, morresse de vontade de sambar no meio da roda. talvez não. talvez não houvesse o que saber, afinal, do seu laconismo. talvez ele fosse apenas tímido.

e nisso tudo eu pensava, ao lado, ocupando meu próprio pedacinho da margem.

amanhã tudo volta ao normal

o que eu mais gosto no carnaval não é a suspensão da vida comum, o deslocamento esperado de sentidos. as gentes fantasiadas nos blocos, ou na passarela das escolas de samba, são legais, claro. mas não é o que mais me emociona. o que eu mais gosto do carnaval é o confronto com a vida que segue, que não se suspende. a diaba esperando ônibus ao lado do chapolin, a mulher-maravilha e o cara de vestido rosa comprando macarrão no supermercado para a janta pós-folia. é andar na rua e topar com chapéus e lantejoulas, colares e corpetes. é confete, serpentina e purpurina na fila do caixa. pessoal se vestindo com as roupas que queria vestir o ano inteiro, mas não pode. tanta cor sacando dinheiro no caixa eletrônico, pegando táxi, segurando as sandálias na mão porque dançou até sair bolha. o que eu mais gosto no carnaval está na beirada do carnaval, na fronteira; quando o suspenso encontra o não-suspenso, o cotidiano. é uma janela para como a vida podia ser fora das datas festivas, se apenas nossas escolhas, enquanto humanidade, tivessem sido outras.

hoje não botei meu bloco na rua, não dancei, não cantei. mas coloquei meu chapéu florido. e fui fazer supermercado.

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*Foto da sista Liliane Callegari.

poliana, ou o otimismo

olhava as coisas sempre pelo ângulo mais favorável. “transformar crises em oportunidades”, dizia. o mundo, o melhor dos mundos possíveis. chegava a pressão e ela entortava. entortava, entortava, sem nunca quebrar. “resiliência”, dizia. a cada golpe aprendia a dobrar-se como um origami, cada vez menor, menor, o menor origami do mundo. um dia ficou tão pequena que não a viram. pisaram. ela nunca mais olhou o lado positivo das coisas, porque morreu esmagada. fim.

um pouco de romance

me deu vontade de colocar aqui uns trechinhos de um possível romance que estou possivelmente escrevendo. segue.

***

a arte não ama os covardes

não seria incorreto afirmar, pensou, que estava nervosa. não, não, nada incorreto. ao lado, o motorista xingava a fila de sinais vermelhos, enquanto ela: que se há de fazer; há tempo; o certo era ter mais metrô; não vale a pena esquentar com isso. mas ela mesma com as mãos geladas – um tanto pelo ar condicionado – pensou em pedir para desligar, mas ficou tímida –, lembrando a entrevista que vinha. perguntas no bloquinho, rabiscou itens pra não esquecer. dependendo do minuto, pensava estar bem preparada ou o contrário, vergonhosamente sem poder perguntar qualquer coisa. quantos livros ele tinha escrito? três, ela lera um. quantas pinturas/obras/instalações? inúmeras, ela vira duas, e apenas as de bienais. ali estava, um artista tipo completo, um tanto renascentista, que ia do visual ao escrito como um da vinci conceitual. tinha até um disco gravado. e ela jornalista. o que não era um currículo, mas um pedido de desculpas.

***
que era preciso ter crença na arte. possibilidades. quanto tudo falta, tudo é bem-vindo, não há esse senso de inutilidade. mas quando tudo sobra, tudo é excesso. aí o dilema: um mundo que tinha tudo, uma vida que tinha tudo, e eu sem fé, tudo tão inútil, tão já-visto… não podia ouvir as vozes novas. elas não eram ainda necessárias. e isso eu lembro bem: cultura é acúmulo. o novo é acúmulo. quando renovar for preciso, tudo será renovado. não sofrer tanto, sendo essa gente de entressafra. não é você, não é seu daemon, é o tempo. estamos na descendente da espiral seguindo o fluxo, continuando. a espiral será destruída e tudo recomeçará, ou não, mas eu e você estaremos longe, longe, ivana.

excessos

o dente-de-leão não está mais lá. provavelmente, foi arrancado com os excessos de grama, quando foi aparada. fiquei pensando no que há de transgressor no dente-de-leão. a forma como cresce sem pedir permissão, a despeito das escolhas paisagísticas mais adequadas. e ainda com a proposta de dar-se ao sopro, ao vento. é uma plantinha dada, o dente-de-leão. biscate. não há espaço para ela num jardim meticulosamente cuidado, onde só floresce o que tem licença. assim como em Gilead.