de catuabas & miolos

E é isso, folks. Hoje, às 2h57 da manhã, dei o enter final. Depois de agonizar com vírgulas, verbos e pontos finais, mandei o Miolos Frescos pro editor, Eduardo Lacerda. Saí, andei até o Xique-Xique, forró na esquina da casa do Fred, pedi uma dose de catuaba. E enquanto fumava o quarto cigarro na varanda, olhando o céu cheio de nuvens dessa Desvairada, ouvindo um cara no teclado cantar que ele que não se senta no trono de um apartamento esperando a morte chegar, com as latinhas de Itaipava vazias na janela e as cadeiras vermelhas de plástico ao lado, pensei: fodeu. Agora vai. Foi.

a dor que se vende nos mercados

“Enfim, nesses extremos da solidão ninguém podia contar com o auxílio do vizinho, e cada um ficava só com sua preocupação. Se alguém, por acaso, tentava fazer confidências ou dizer alguma coisa do seu sentimento, a resposta que recebia, qualquer que fosse, magoava na maior parte das vezes. Compreendia então que ele e o interlocutor não falavam da mesma coisa. Com efeito, ele se exprimia do fundo de longos dias de ruminação e de sofrimentos, e a imagem que queria transmitir ardera muito tempo no fogo da espera e da paixão. O outro, pelo contrário, imaginava uma emoção convencional, a dor que se vende nos mercados, uma melancolia em série. Amável ou hostil, a resposta caía sempre no vazio, era preciso renunciar a ela. Ou, pelo menos, para aqueles a quem o silêncio era insuportável, já que os outros não conseguiam encontrar a verdadeira linguagem do coração, resignavam-se a adotar a língua dos mercados e a falar, também eles, de maneira convencional, a do simples relato e do noticiário, da crónica cotidiana, de certo modo. Ainda nesse caso, as dores mais verdadeiras adquiriram o hábito de se traduzir em fórmulas banais de conversação. Só por esse preço podiam os prisioneiros da peste obter a compaixão dos porteiros ou o interesse dos ouvintes”.

A PESTE, Albert Camus.

[via Liliane Callegari].

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Summer in the city, de Edward Hopper. 

por aí

Esses dias dei bronca em um amigo que não avisa direito o que anda fazendo, de entrevistas e cursos a participações em revistas e antologias. As pessoas não têm bola de cristal para adivinhar, protestei. Mas aí, pensando nas coisas que eu ando fazendo, caiu a ficha: eu também não tenho sido muito esperta em avisar do que tem rolado. Shame on me. E, bem, bora corrigir isso.

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Minha participação mais recente foi na edição #3 da revista Parênteses, editada pela Lubi Prates e pelo Bruno Palma e Silva. A revista é muito bonita, dá gosto olhar. É trimestral e distribuída gratuitamente na internet, em formatos PDF e ePub.

hussardos

Em janeiro desse ano, foi publicada a antologia É Que os Hussardos Chegam Hoje, um livro-festa com 77 poetas que nasceram ou moram em São Paulo. Publicado pela editora Patuá, o livro é uma homenagem aos Hussardos, clube literário recém-inaugurado pelo Vanderley Mendonça.

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No final do ano, escrevi o prefácio para o Contos do Poente, o livro das queridas Luciana Nepomuceno e Rita Paschoalin. O livro tem ilustrações da Joana Faria. É possível comprar um exemplar em livrarias como a Nobel, em Florianópolis, ou na Folha Seca, no Rio de Janeiro, ou direto com as autoras.

Celuzlose10_Capa

No ano passado, saíram alguns poemas na Celuzlose, do Victor Del Franco. É uma revista alentada, com muitas colaborações. Dá pra baixar ou ler nesse endereço.

RelevO

Em maio de 2013, saiu um texto meu no jornal RelevO. O texto que saiu é uma prosinha/crônica que escrevi aqui para esse blog. O RelevO é um impresso que sai mensalmente no Paraná e é editado pelo Daniel Zanella. Dá para ler a edição em questão nesse endereço.

Murilo Mendes por Murilo Mendes

Microdefinição do autor

(A)

Sinto-me compelido ao trabalho literário:

pelo desejo de suprir lacunas da vida real; pela minha teimosia em rejeitar as “avances” da morte (tolice: como se ela usasse o verbo adiar); pela falta de tempo e de ideogramas chineses; pela minha aversão à tirania (…); pelo meu congênito amor à liberdade, que se exprime justamente no trabalho literário; pelo meu não-reconhecimento da fronteira realidade-irrealidade (…); pela certeza de que jamais serei guerrilheiro urbano, muito menos rural, embora gostasse de derrubar uns dez ou quinze governos dos quais omitirei os nomes: receio que outros governos excluídos da minha lista negra julguem que os admiro, coisa absurda (…); por ter visto Nijinski dançar; pelo meu apoio ao ecumenismo, e não somente o religioso; por manejar uma caneta que, desacompanhando minha ideia, não consegue viajar à velocidade de mil quilômetros horários (…); pela preferência a preferir Alocha a Ivan e Dimitri Karamazov; porque dentro de mim discutem um mineiro, um grego, um hebreu, um indiano, um cristão péssimo, relaxado, um socialista amador; porque não separo Apolo de Dionísio; por haver começado no início da adolescência a leitura de Cesário Verde, Rancine, Baudelaire (…); pela fúria galopante dos quadros e colagens de Max Ernst; pela decisão de Casimir Malevich, ao pintar um quadrado branco em campo branco (…); pelo meu amor platônico às matemáticas; pelo dançado destino e as incríveis distrações de Saudade; pelo meu não vertical às propostas de determinados apoetas e impostas no sentido de liquidação da poesia; pelas minhas remotas e atuais viagens ao cinematógrafo, palavra do tempo da infância; porque temo o dilúvio de excrementos, a bomba atômica, a desagregação das galáxias, a explosão da vesícula divina, o julgamento universal; porque através do lirismo propendo à geometria.

(B)

Pertenço à categoria não muito numerosa dos que se interessam igualmente pelo finito e pelo infinito. Atraem-me a variedade das coisas, a migração das ideias, o giro das imagens, a pluralidade de sentido de qualquer fato (…) Sou contemporâneo e partícipe dos tempos rudimentares da matéria – 900 bilhões de anos? –, do dilúvio, do primeiro monólogo e do primeiro diálogo do homem, do meu nascimento, das minhas sucessivas heresias (…), do último acontecimento mundial ou do acontecimento anônimo da minha rua. Na gruta de Altamira disse: eu estava aqui na época em que gravaram estes bichos.

(D)

(…) atiço o conflito entre inspiração e estrutura (…), hóspede dos enigmas; protegido pelo sense of humour, meu anjo da guarda…

[Murilo Mendes, Roma, 14/02/1970]

(Trecho roubado do Facebook do Marcelo Montenegro)

uma ilusão

“Live all you can; it’s a mistake not to. It doesn’t so much matter what you do in particular so long as you have your life. If you haven’t had that what have you had? … I haven’t done so enough before—and now I’m too old; too old at any rate for what I see. … What one loses one loses; make no mistake about that. … Still, we have the illusion of freedom; therefore don’t be, like me, without the memory of that illusion. I was either, at the right time, too stupid or too intelligent to have it; I don’t quite know which. Of course at present I’m a case of reaction against the mistake. … Do what you like so long as you don’t make my mistake. For it was a mistake. Live!”

Henry James, The Ambassadors

dois convites: caio f. e pesquisa daora

Esse post é pra convidar vocês para duas coisas. A primeira é que hoje à noite, às 20h, horário de São Paulo, vai rolar um chat comigo sobre como foi escrever a biografia do Caio F. Tudo que você sempre quis saber sobre o processo, se dá trabalho (teaser: sim, muito!), se ganhei “fortunas”, enfim. O chat vai rolar no ambiente virtual da Dinossauros & Anfíbios, uma comunidade online voltada para literatura. É só entrar em literatura.ning.com e participar. Ah, aproveita e se inscreve no site, vai rolar muita coisa bacana lá a partir de novembro (ou seja, agora). 😉

caioinvite

O outro convite que eu quero fazer é, na verdade, um pedido: eu, a Marília Moschkovich e a Nessa Guedes estamos coordenando uma pesquisa sobre hábitos na internet. É para um projeto muito especial que estamos preparando. Gasta apenas 10 minutos para responder o questionário (que tá super legal, gente, prometo) e você ainda concorre a R$ 100 para gastar como quiser. E, claro, ainda ajuda a gente a fazer o projeto caminhar no rumo certo. Para responder, é só clicar aqui. Bora lá?

pesquisabold

FLAP! + grupo de criação literária

Oi, tudo bem? Como anda a vida?

Por aqui, coisas legais acontecendo. Na área de literatura, dois lances que eu queria dividir com vocês (com algum atraso, que é o meu jeitinho…). E fazer o convite, claro.

1) A primeira coisa é a FLAP! 2013, um festival independente de literatura e poesia, organizado há vários anos por uma turma animada aqui de São Paulo, e que vai rolar essa semana, de sexta (20/set) a domingo (22/set). Colaborativo e gratuito, o festival é a mostra de que a literatura independente tem força e poder e está muy viva nessa cidade cinza. Estou na curadoria e mediação da mesa “O corpo e as margens”, que vai trazer quatro debatedores incríveis: Elizandra Souza, Alfredo Fressia, Juliano Garcia Pessanha e Nuno Ramos (mais sobre a mesa aqui). Essa mesa vai rolar às 10h da manhã de sábado, dia 21 de setembro, na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo.

A programação completa, com debatedores, horários e locais de cada debate, está no site da FLAP. Boralá?
flaplogo

2) A segunda coisa é o grupo de criação literária que tá rolando n’oGangorra, em São Paulo. O primeiro encontro foi esse sábado e foi incrível – turma animada e empolgada em escrever e trocar. Até o próximo encontro (em 28/09), ainda dá pra entrar gente nova pra conversar e debater sobre a produção de cada um. Abaixo o flyer – e não se preocupe com a doação de livros; ela não é obrigatória nesse semestre.

gangorra

 

Era isso, pessoal. A gente se vê, na FLAP ou n’oGangorra…

Vinagre, a antologia neobarraca

E no calor dos acontecimentos da jornada de junho no Brasil, muitos poetas sentiram que deveriam dizer alguma coisa. Posicionar-se. Assim surgiu a Vinagre – Uma Antologia de Poetas Neobarracos, organizada por Fabiano Calixto. A coisa toda foi muito rápida: na sexta a convocação, na segunda já saía a antologia diagramada para download. Participei com um poemeto, que transcrevo abaixo. Logo tivemos o primeiro comentário crítico, publicado por Ricardo Pedrosa Alves em seu blog. Abaixo, o material para ler, folhear, ajudar a pensar sobre esses dias incendiários.

vinagre

Vinagre, uma antologia de poetas neobarracos: http://pt.calameo.com/read/0025156248952e78c09f4

Vinagre, uma antologia de poetas neobarracos (2ª edição ampliada) http://pt.calameo.com/read/0025156248952e78c09f4

Entrevista com Os Vândalos na revista Cult: http://revistacult.uol.com.br/home/2013/06/vinagre-e-poesia/

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receita de bomba pra detonar revoluções

explosivas são as flores
portanto, o principal
tambores e dançar
stayin’ alive
dar cambalhota lançar tapiocas
não esquecer o vinagre
o vinagre é muito, muito importante

pichar facista sem S, que o S
é coisa da polícia
da gramática
vamos explodir a norma culta
que a língua a rua a flor do lácio é nossa
a cidade a língua é nossa casa é nossa
é nossa

j.c.

quixote

– Por falar nisso, Sancho, quero que a aprecies [a comédia], tendo-a em alto conceito, como também aqueles que as representam e que as escrevem, pois todos são instrumentos de um grande bem para a república: a cada passo nos põem um espelho pela frente, onde se veem vividamente as ações humanas. Nada nem ninguém representa de modo mais eficaz o que somos e o que haveremos de ser do que a comédia e os comediantes, ou então me diz: não viste representar alguma comédia em que se introduzem reis, imperadores e pontífices, cavaleiros, damas e vários outros personagens? Um faz o rufião, outro o embusteiro, este o mercador, aquele o soldado, outro o bobo sábio, outro o simplório apaixonado, mas, acabada a comédia, despindo os trajes dela, todos os atores ficam iguais.
– Já vi, sim – respondeu Sancho.
– O mesmo que acontece na comédia – disse dom Quixote – acontece no mundo, onde uns representam os imperadores, outros os pontífices, enfim, todas as figuras que se podem introduzir numa peça. Mas, chegando ao fim, que é quando acaba a vida, a todos a morte tira os trajes que os diferenciavam, e ficam iguais na sepultura.

 

Trecho de Dom Quixote, na tradução do Ernani Ssó, que saiu há pouco pela Penguin Companhia. Escrevi uma mini-resenha do livro para a Vida Simples de fevereiro de 2013.