Vinagre, a antologia neobarraca

E no calor dos acontecimentos da jornada de junho no Brasil, muitos poetas sentiram que deveriam dizer alguma coisa. Posicionar-se. Assim surgiu a Vinagre – Uma Antologia de Poetas Neobarracos, organizada por Fabiano Calixto. A coisa toda foi muito rápida: na sexta a convocação, na segunda já saía a antologia diagramada para download. Participei com um poemeto, que transcrevo abaixo. Logo tivemos o primeiro comentário crítico, publicado por Ricardo Pedrosa Alves em seu blog. Abaixo, o material para ler, folhear, ajudar a pensar sobre esses dias incendiários.

vinagre

Vinagre, uma antologia de poetas neobarracos: http://pt.calameo.com/read/0025156248952e78c09f4

Vinagre, uma antologia de poetas neobarracos (2ª edição ampliada) http://pt.calameo.com/read/0025156248952e78c09f4

Entrevista com Os Vândalos na revista Cult: http://revistacult.uol.com.br/home/2013/06/vinagre-e-poesia/

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receita de bomba pra detonar revoluções

explosivas são as flores
portanto, o principal
tambores e dançar
stayin’ alive
dar cambalhota lançar tapiocas
não esquecer o vinagre
o vinagre é muito, muito importante

pichar facista sem S, que o S
é coisa da polícia
da gramática
vamos explodir a norma culta
que a língua a rua a flor do lácio é nossa
a cidade a língua é nossa casa é nossa
é nossa

j.c.

Acredite: é subversivo

E em dias de primavera paulistana, com tanta coisa bonita chegando na timeline, uma das mais belas é o discurso do filósofo Slavoj Zizek no Occupy Wall Street, em 2011. Está abaixo, pra quem quiser ver (transcrição em português aqui). O momento é intenso e suas palavras, sábias: “não se apaixonem por si mesmos”; o que importa é o que ficará depois que as coisas voltarem à normalidade. É bonito e verdadeiro. Mas permitam-me discordar por um momento.

Apaixonem-se por si mesmos – por cinco minutos. Por cinco minutos, permitam-se ter orgulho de si e dos colegas que estão fazendo dessas manifestações algo memorável, ao mesmo tempo único e conectado a tantos outros movimentos do mundo. Percebam como é trabalhar em grupo, e como é muito mais fácil do que a gente pensava. Percebam como é bacana entender, de forma tão pessoal, o que motivou as pessoas em outras épocas e revoluções. A força nascendo do medo, a união nascendo das diferenças. As pessoas têm diferentes motivações para estar na rua, e isso não é ruim. Insatisfação geral com tudo que está aí não é ruim. Não ter respostas prontas e fechadas não é ruim.

Porque, se pensarmos bem, até que temos algumas respostas – ou propostas. Temos discutido isso, de diferentes maneiras, há alguns anos – em alguns casos, décadas. Se pensarmos com cuidado, temos sim questões concretas por que lutar. Queremos: um Estado que não se esqueça das pessoas. Cidades vivíveis, que sejam mais que lugares de passagem. Sabemos que isso passa pela mobilidade, pelo direito de se locomover na cidade com dignidade. Passa por bicicletas, por transporte público decente. Novamente: foco no ser humano. Não nos carros. Nas pessoas. Sabemos que tem a ver com o verde. Com parques, locais de convivência, com lazer público. Com uma cidade mais humana, em que a especulação imobiliária não é mais forte que os direitos do ser humano. Passa pela poesia, pela arte.

Passa pelo direito a uma infância mais ativa, por crianças que podem viver a rua, e não apenas passar do aquário-do-carro para o aquário-do-apartamento. Passa pelo direito de comer alimentos que não sejam entupidos de veneno, produzidos de forma ética e digna. Passa pelo direito à informação, sem que precisemos duvidar de tudo que vemos na TV. Pelo direito a andar na rua de mãos dadas para todos os casais, hétero ou gays. Pelo direito a ter sua identidade de gênero respeitada, independente do tipo de genital no meio das pernas. Passa pela desmilitarização da polícia e pelo direito de protestar.

vdevinagre

E talvez, acima de tudo, passe pelo fim da desigualdade. Para que o abismo entre quem tem muito e entre quem tem pouco não seja tão imenso. Sabemos que avanços têm ocorrido nesse sentido, e isso é lindo. Mas não é suficiente. Jovens negros continuam sendo mortos por uma polícia que a gente, aqui na ZO, só tá aprendendo a conhecer agora. Gente demais continua na cadeia por roubar um pedaço de pão. Mulheres demais morrem por causa de abortos precários. Crianças demais enveredam por paradas erradas por não verem outra opção. A miséria não é aceitável, e segregar pessoas num modelo de cidade excludente e violenta não é aceitável. A gente sabe por onde as soluções passam, mesmo que discordemos dos detalhes (e discordar é bom, dissenso é bom; nunca duvidem do poder do embate saudável, porque é assim que a gente cresce). A gente sabe por onde passa: pelo foco nas pessoas. Nos seres humanos. TODOS os seres humanos. Não só os brancos, de classe média, do sexo masculino, heterossexuais, cisgêneros, motoristas de grandes automóveis e respeitadores da ordem. Não. É dignidade pra todo mundo. Pra quem sempre ficou de fora. Principalmente pra quem sempre ficou de fora. Eu preciso de um Estado decente e de uma cidade que me respeite como ser humano, mas ainda é verdade que fiquei com a melhor fatia do bolo; tem gente que precisa ainda mais do que eu de um Estado e de uma cidade que os respeite.

A gente sabe, no fim, o rumo a tomar, as propostas concretas que queremos. É por um Estado que não se esqueça das pessoas, por uma cidade cujo foco principal sejam as pessoas. Pelo direito de ser gente. Com dignidade. Não é tão difícil.

Por isso, permita-se apaixonar por esse momento. Nem que seja por alguns instantes. Porque ele não é só um surto de rebeldia instantânea; esses debates têm sido construídos há muito tempo. Permita-se curtir esse momento mesmo sem existir uma única demanda concreta que una todas as pessoas nesse instante, porque a principal revolução é no imaginário. Mais que qualquer ganho real e imediato, o movimento em si já é a mudança. Apaixone-se pelo processo de mudança, que é incessante. Pela luta. Apaixonar-se por colaborar, estar inquieto, ajudar, dar força, se inspirar, pensar que é possível. Acima de tudo, apaixone-se por pensar que é possível. Isso nunca será inofensivo.

Como diz a Lu, acreditar é subversivo. Estar com outras pessoas é transformador. Enquanto a gente acreditar, o amanhã não será o mesmo.