a aia e o dente-de-leão

ontem vi um dente-de-leão. único, no gramado aonde caminho depois do almoço. engraçado como a realidade às vezes conversa com nossa cabeça. na mente, outro dente-de-leão: uma criança sopra, a mãe observa, em lembranças. foi em o conto da aia, da margareth atwood. presente que ganhei da ana erre esse ano: é tema de seu doutorado, e ela nos convidou a ler. li. me perturbou. não tinha outro jeito. um mundo em que as mulheres são divididas em categorias, algumas são esposas, outras cuidam da limpeza, outras da cozinha. outras são aias: receptáculos para fins reprodutivos. para transar com os maridos – os comandantes – e dar à luz crianças que seriam criadas por esposas inférteis. ideia tirada da bíblia:

Vendo, pois, Raquel que não dava filhos a Jacob, teve Raquel inveja de sua irmã, e disse a Jacob: dá-me filhos, senão eu morro.

Então se acendeu a ira de Jacob, contra Raquel, e disse: Estou eu no lugar de Deus, que te impediu o fruto de teu ventre?

E ela lhe disse: Eis aqui a minha serva, Bilha; entre nela para que tenha filhos sobre os meus joelhos, e eu, assim, receba filhos por ela.

a taxa de fertilidade do país – que um dia fora os estados unidos – vinha caindo. estava negativa. era preciso fazer algo. então a regulação de corpos e comportamentos. das mulheres, principalmente. algumas com mais benefícios que outras – que é para que não se revoltem. quando o poder é escasso, ter pouco é melhor que nenhum. há poucos protestos. afinal, é para o bem delas. dificilmente são estupradas, abusadas, agora. não é preciso se preocupar com padrões de beleza impostos: hábitos como os de freiras cobrem a maioria dos corpos.

as aias são mulheres que já provaram sua fertilidade, por já terem filhos. como a narradora offred. sua história é assustadora, porque não inverossímil. regular o corpo e o sexo das pessoas faz parte da nossa realidade. e no fim até mesmo a narrativa de offred é questionada, numa sacada sensacional de atwood. tenho pensado no livro. em offred, em sua passividade, na filha perdida, sem nome. nas pequenas coisas que fazem tanta falta se tiradas, pequenos luxos que não percebemos. como creme para as mãos, proibido para as aias. e outras coisas vetadas a elas. conversar à toa. comer um chocolate. caminhar no gramado após o almoço. ver um dente-de-leão.